domingo, 21 de março de 2010

A transvaloração de valores

25.07.08

Esta idéia corrente de que é melhor para nosso “aprendizado” sobre virtude e desapego receber o contrário do que pedimos é uma forma de enfraquecer a autodeterminação, o desejo, a vontade! É um mecanismo (provavelmente cristão) de subjugação! Funciona da seguinte forma: eu quero um namorado rico! Ah, diz o cristão, então você se apaixonará por um namorado pobre para que você aprenda uma lição: amar qualquer um, independente de ser rico ou pobre. A culpa por ter desejado um namorado rico, advinda da sensação de “prepotência”, mina o próprio deseja e nos faz pensar que não somos merecedores de um namorado rico! Dessa forma, acabamos nos comportando como se somente devêssemos nos interessar e amar uma pessoa pobre! Conseqüentemente, por uma mera questão de percepção, acabamos por confirmar nossa crença: ou nunca encontramos um namorado rico ou nos apaixonamos por uma pessoa pobre!
O objetivo central deste mecanismo é demonstrar que a vontade individual nada pode e nada deve desejar; ela é impotente! Somente a vontade de um Ser superior, que nos observa o tempo todo e fica nos enviando lições de vida a toda hora, prevalecerá! Não há nada que possamos fazer contra a vontade Dele. Portanto, devemos aguardar suas lições silenciosa e respeitosamente e aceitar as vicissitudes que a vida nos impõe. (É um mecanismo de dominação bastante eficiente. Imagine que todos nós nos sentíssemos merecedores da (o)s melhores mulheres, melhores homens, melhores postos... Seria uma carnificina! O Estado de natureza seria aqui! Esta igualdade perante os homens pôde ser resolvida, e contida, com a desigualdade estabelecida perante os Deuses! A idéia de um “Deus é civilizacional”, pois contribui para a contenção das pulsões humanas.)
O que não percebemos é que esse construto mental, enraizado na maioria das sociedades ocidentais contemporâneas, é, de fato, um mecanismo de auto-boicote, baseado no ressentimento. Ao nos percebermos pequenos diante de nossos desejos e aspirações, formulamos idéias de que, em realidade, estamos sendo “tutelados” por uma força superior que olha por nós constantemente ensinando-nos lições que visem à nossa evolução como indivíduos (o que já é por si questionável – ele não poderia ser simplesmente um sacana?). Assim, transformamos nossa frustração profunda, ao nos sentirmos incapazes e fracassados, em uma “via Crucis” de crescimento e aperfeiçoamento pessoal. É uma forma suave de nos perdoarmos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário