Recentemente, assisti ao filme “Feliz Natal”. Fomos eu e mais dois amigos ao cinema e para ver um outro filme, foi somente chegando lá que um deles percebeu que já o tinha visto. Eles então decidiram ver “Feliz Natal”. Não tinha a menor idéia do conteúdo do filme. Vi o cartaz e me interessei, pois mostra uma cena de três generais da Primeira Guerra Mundial. Filmes que se passam em momentos históricos são muito bem vindos em meu repertório, hoje e sempre. Após um breve cafezinho, fomos à sala de cinema.
Os budistas orientam que a melhor forma de se viver seria aquela em que nada se espera, nada se deseja. As expectativas seriam o germe da frustração, o que desencadeia uma série de sentimentos indesejáveis, como o sofrimento e a raiva. Assim, sem expectativas fiquei muito impressionada com os rumos que o filme tomou.
O filme mostra uma noite de Natal, no inverno de 1914, durante a I Guerra Mundial em que três exércitos, francês, escocês e alemão, confraternizam entre si. O protagonista do filme é um cantor lírico alemão que abandona, juntamente com sua companheira, também cantora, uma festa de Natal promovida por generais alemães, em uma fazenda nos arredores da França, e segue para as trincheiras onde seus colegas soldados estão abrigados. Ele, como milhares de outros alemães, foi convocado para a guerra. Do outro lado do campo em que se encontravam entrincheirados, os escoceses faziam sua festa particular com “foles”, instrumento típico da Escócia. Ao ouvir a voz do artista alemão que cantava uma canção natalina para seus companheiros, os “inimigos” do outro lado da trincheira se puseram a acompanhar a melodia ao som do “fole”. A partir desse encontro sonoro, o cantor alemão ousa sair de sua trincheira com uma árvore de Natal e vai na direção à trincheira “inimiga”. Admirados pela ousadia do alemão, os escoceses fazem o mesmo, saindo de suas trincheiras e indo na direção da alemã. Os franceses, posicionados nos mesmos arredores, se espantam com a cena que observam, mas logo se unem aos demais.
É uma cena exuberante: os três batalhões frente a frente com seus contendores. Inimigos declarados se observam e se percebem. Reconhecem no outro a suas semelhanças: somos todos pessoas. Não há efeitos especiais capazes de suplantar essa cena em beleza e sensibilidade. Afinal, refere-se a uma beleza maior, a uma beleza que transcende nosso senso estético. É a beleza da humanidade. Fiquei extasiada! Absolutamente surpresa! Acostumada à série de filmes que relatam a I Guerra em seus horrores, com seres desumanizados, inseridos em uma situação que não compreendem bem (e que nem os historiadores que vieram depois conseguem recontar com clareza, vide o debate historiográfico relativo às origens e precursores da IGM), eis que me deparo com um acontecimento histórico esquecido. Intencionalmente? Provável que sim.
O filme versa sobre diversos assuntos, entre eles a irracionalidade da guerra. A destruição ocasionada por uma guerra, se vista sob o prisma da economia, ângulo preferido pelos grandes tomadores de decisão, não é racional. Kant afirmou que as sociedades prosperam em tempos de paz, afinal, é nesse ambiente que as transações comerciais se dão com mais fluidez, seguindo as regras previamente acordadas. A paz gera um ambiente de segurança em que a confiança mútua prevalece. Afinal, se alguém descumprir regras, há mecanismos racionais de resolver os conflitos, sem a necessidade de recorrer à violência para resolvê-los. A guerra representa a vitória da falta de diálogo, da falta de compreensão, da brutalidade versus civilidade. Parece haver uma regressão em termos civilizatórios. Se compararmos o desenvolvimento da humanidade com o de um ser humano, podemos perceber algumas analogias válidas.
Quando crianças, brigamos por brinquedos, por espaços, por atenção. Choramos, esperneamos, enfim, usamos os meios pelos quais acreditamos conseguir nosso objeto de desejo. Como nossa capacidade racional ainda não é plenamente desenvolvida, em termos relacionais, como é o caso do aprendizado da fala, não recorremos ao diálogo para negociarmos uma possível solução “pacífica”. Conforme crescemos e apreendemos as regras de convivência e sociabilidade, construímos mecanismos mais “avançados” de obtenção de nossos objetos de desejo.
Assim ocorre com a humanidade. A razão libertou o homem do jugo da irracionalidade. A “abertura de clausura” ocorrida na Grécia Clássica em que o homem se percebe capaz de refletir sobre seus atos representa um salto qualitativo imensurável. O homem passa a ser “autônomo”, criador de suas próprias regras. Não mais acata regras “heterônomas” ou advindas de outro lócus, divino, que não o seu. A noção de espaço público, de um local onde se discute os problemas relativos à vida em sociedade, sem recorrer à violência, representa um passo significativo no que se refere à capacidade do ser humano articular suas insatisfações de forma racional. A razão, como afirmou Hobbes, permite ao homem sair de seu estado de brutalidade e criar a comunidade.
Nesse filme, a crença no poder do diálogo e do encontro entre indivíduos reforçou a crença em mim de que a Diplomacia é uma das mais belas artes já criadas pelo homem. É a celebração da existência que precede a essência, conforme afirmou Sartre.