Há alguns anos, quando ainda era estudante de Psicologia, uma professora indagou à turma: quando, afinal, nossa psique é instaurada? Em outras palavras, quando nasce nossa psique? Diversas foram as respostas. Uns responderam “ora, quando saímos da barriga de nossas mães”, outros “quando ainda estamos sendo gestados” ou ainda “após dos primeiros anos de vida”. Ao que a professora respondeu com uma revelação um tanto inédita para aqueles curiosos estudantes da mente humana: nossa psique é inaugurada nas projeções de nossos pais, nos diferentes momentos em que eles sonharam como seriam seus filhos. Em outras palavras, nas projeções de desejos de realização deles mesmos.
A vida nos mostra que o curso de uma existência talvez não nos permita realizar tudo o que desejamos. Compreendemos que ela é o resultado de um encadeamento de decisões pontuais condicionadas pela percepção que temos de nosso momento presente. Assim, ao olharmos para trás, percebemos que muitas dessas decisões podem não ter sido as mais acertadas. Estávamos ansiosos por realizar projetos, ou cegos por uma visão limitada do que poderíamos ser. Medos, desejos, sonhos... Tudo contribui para a tomada de decisão. Mas, será possível ter certeza de que se está tomando a decisão certa? Como sabemos?
O caminho para a certeza reside no processo de individuação; saber quem se é. Parece, num primeiro olhar, uma pergunta retórica, sem possibilidade de resposta. Porém, a busca pela resposta é justamente o caminho. Nossas escolhas são pautadas pela percepção que temos de nós mesmos. Geralmente fazemos escolhas que condizem com nossas crenças, as quais buscamos sempre reafirmar. O trilhar de nossos caminhos nada mais é do que a confirmação diária do que acreditamos sermos capazes. Nossas realizações são a medida de nossas percepções acerca de nossas potencialidades. A questão que se impõe é, será que somos sempre cientes de nossos dons, de nossas capacidades?
Jung afirmava que todos possuímos um conhecimento universal que transcende a nós mesmos. É como se nascêssemos com um potencial para desenvolvermos determinadas habilidades, não necessariamente em detrimento de outras. Por isso a necessidade de “individuação”. Afinal, por mais que sejamos, também, o fruto das projeções de nossos pais, somos indivíduos dotados de originalidade. Ou somos a soma, o resultados de ambos os fatores?
Nossa trajetória pessoal é uma constante reconstrução do que foi feito de nós. Partimos de uma história que nos antecede e sobre a qual não temos controle. O presente, no entanto, nos permite refazer percepções e redirecionar determinações. O cruel contato consigo mesmo, com nossos medos e ansiedades, nos permite encararmos nossas dificuldades para, então, superá-las. Não podemos lutar contra um inimigo que não conhecemos. (Apropriamo-nos, assim, dos desejos que serão transformados em devires.)
Ao percebermos que nossa psique antecede em muito a nossa existência material, temos muito mais elementos para nos posicionarmos frente à vida. Podemos, desta forma, excluir de nossa percepção crenças disfuncionais que nos impedem de realizarmos nossos mais profundos potenciais. A psique pode ser instaurada muito antes de termos o poder consciente de a determinarmos, mas a o auto-conhecimento nos permite redirecionarmos nosso destino a cada dia. A conscientização de que temos um potencial inerente a ser desenvolvido e vivido nos conduz à ação revolucionária de fazermos de nosso presente o palco de nosso desenvolvimento pessoal. A grande vitória reside em sentirmos que estamos vivendo a vida plenamente e realizando, a cada dia, todo o nosso potencial de criação.
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