terça-feira, 28 de agosto de 2012

Comentário sobre a peça Romeu e Julieta


Londres, 20 de maio de 2012
Assisti hoje à peça Romeu e Julieta, encenada por um grupo teatral brasileiro, no Globe Theatre.  A peça é uma adaptação criativa da obra de Shakespeare; mistura circo com bufão, clássico com baião. Sob certo olhar, a peça conjuga elementos “tipicamente” brasileiros. Brasil, neste sentido, país colonial, que nasceu sob a influência de diferentes culturas e diferentes tempos. País marcado pela escassez, tanto de recursos quanto de informação e educação, mas que tem um povo criativo, pronto a traduzir o que vê para sua própria linguagem, repleta de símbolos que expressam suas realidades.
Quando entramos no teatro, deparamos com um carro velho, elemento que proporciona um ambiente “fora” do palco, quando os artistas estão dentro dele, e que apoia um “palco elevado” acima dele, onde diversas cenas ocorrem. Os atores mudam de roupas atrás do carro, o que permite que a plateia os veja neste ato. Alguns dos atores se apresentam em pernas de pau, com guarda-chuvas de frevo e, por vezes, representam estarem andando sobre uma corda bamba, típica cena circense. Enfim, uma mélange de referências culturais brasileiras compõem a adaptação da obra shakespeariana.
Enquanto assistia à peça, uma série de sentimentos me invadiu: vergonha, repulsa, rejeição. Não queria que “aquilo” fosse o Brasil. Fiquei envergonha de ver aquele mistura de roupas, de estilos, de música... como se tivessem desrespeitado a magnífica obra de Shakespeare. Houve cenas de “brincadeiras” sexuais típicas das comédias brasileiras, que sempre arrancam gargalhadas do público. O mesmo não deixou de ocorrer nesta apresentação, não sabia se por vergonha ou orgulho da coragem de desobedecer a aparente regra moral.
Enfim, fiquei a me questionar por que senti tanta repulsa. Percebi que possuo uma forma bastante “elitista” de sentir. Não é algo racional em mim rejeitar essa expressão. Pelo contrário! Fui de coração aberto, desejando prestigiar uma adaptação brasileira à obra do grande autor inglês. Porém, ao perceber minha rejeição, pus-me a questionar o que eu de fato considero “brasileiro”, o que admiro como expressão artística e se mereço repreensão ou educação relativa aos meus sentidos.
Quanto a primeira questão, muitos autores mais iluminados e letrados do que eu já se debruçaram sobre o assunto. O Brasil é um caldo de culturas que se misturam e dão origem a um algo “novo”, “original”. A relação entre diferentes culturas se dá de forma pacífica e acolhedora. O Brasil é antropofágico, recebe influências estrangeiras e as transforma conforme as formas de sentir brasileiras. A grande marca do país é justamente a convivência harmoniosa de contrários, que se combinam e criam uma cultura própria. Será?
O que admiro como expressão artística somente posso referir com base naquilo que respeito e no que rejeito. Acredito que a arte nos toca por diferentes motivos, razões que nos são inconscientes, pois construídas ao longo de nossas vivências. Uma pintura, uma escultura ou uma música nos toca por mobilizar algo dentro de nós, que nem sempre conseguimos conferir significado racional, mas que nos tira do mundo em um instante, ou nos faz querer fugir em outro. Eu admiro o belo, o esteticamente admirável. Gosto da forma como é representado, seja pela luz e sombra de Rembrandt, sejam pelas cores delicadas e vibrantes dos impressionistas. Gosto do que me causa paz, que me faz refletir, que me acrescente uma nova forma de enxergar o mundo, mas que me fortaleça a abasteça; que me impulsione a continuar a acreditar. Não gosto do que me deprime ou degrada como ser humano, apesar de considerar importante pensar sobre nossas limitações como seres racionais. Gosto da harmonia.
Gostar de harmonia me torna elitista, retrógrada ou, simplesmente, obsessiva?  Deveria eu ter maior consideração com aquilo que não consegue alcançar a beleza harmônica, ou pelo menos o que assim considero?
Temo a hierarquização da arte. Afinal, que vai criá-la? Quais serão os parâmetros aceitáveis para se considerar uma manifestação artística válida e valiosa? Não seria um passo rumo ao autoritarismo, ter o direito de dizer o bom e o ruim, o alto ou a “baixa” cultura? Quem pode dizer?
Penso que tenho o pleno direito de gostar e de não gostar de algo. Sou livre para tanto. O perigo reside em crer que se eu não gosto, por ser que sou, por ter tido certa educação ou certa criação, sou mais apto a dizer o que é bom; o que é superior ou inferior. Quero sempre cultivar uma atitude de respeito para com as mais diversas manifestações artísticas, sentindo-me livre para gostar ou não gostar, sem me sentir estranha por isto.
Apesar disto, continuo preocupada por ter tido os sentimentos que tive. O que eles dizem de mim?

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