Londres, 20 de maio de 2012
Assisti hoje à peça Romeu e Julieta,
encenada por um grupo teatral brasileiro, no Globe Theatre. A peça é uma adaptação criativa da obra de
Shakespeare; mistura circo com bufão, clássico com baião. Sob certo olhar, a
peça conjuga elementos “tipicamente” brasileiros. Brasil, neste sentido, país
colonial, que nasceu sob a influência de diferentes culturas e diferentes
tempos. País marcado pela escassez, tanto de recursos quanto de informação e
educação, mas que tem um povo criativo, pronto a traduzir o que vê para sua
própria linguagem, repleta de símbolos que expressam suas realidades.
Quando entramos no teatro, deparamos
com um carro velho, elemento que proporciona um ambiente “fora” do palco,
quando os artistas estão dentro dele, e que apoia um “palco elevado” acima
dele, onde diversas cenas ocorrem. Os atores mudam de roupas atrás do carro, o
que permite que a plateia os veja neste ato. Alguns dos atores se apresentam em
pernas de pau, com guarda-chuvas de frevo e, por vezes, representam estarem
andando sobre uma corda bamba, típica cena circense. Enfim, uma mélange de referências culturais
brasileiras compõem a adaptação da obra shakespeariana.
Enquanto assistia à peça, uma série
de sentimentos me invadiu: vergonha, repulsa, rejeição. Não queria que “aquilo”
fosse o Brasil. Fiquei envergonha de ver aquele mistura de roupas, de estilos,
de música... como se tivessem desrespeitado a magnífica obra de Shakespeare.
Houve cenas de “brincadeiras” sexuais típicas das comédias brasileiras, que
sempre arrancam gargalhadas do público. O mesmo não deixou de ocorrer nesta
apresentação, não sabia se por vergonha ou orgulho da coragem de desobedecer a
aparente regra moral.
Enfim, fiquei a me questionar por que
senti tanta repulsa. Percebi que possuo uma forma bastante “elitista” de
sentir. Não é algo racional em mim rejeitar essa expressão. Pelo contrário! Fui
de coração aberto, desejando prestigiar uma adaptação brasileira à obra do
grande autor inglês. Porém, ao perceber minha rejeição, pus-me a questionar o
que eu de fato considero “brasileiro”, o que admiro como expressão artística e
se mereço repreensão ou educação relativa aos meus sentidos.
Quanto a primeira questão, muitos
autores mais iluminados e letrados do que eu já se debruçaram sobre o assunto.
O Brasil é um caldo de culturas que se misturam e dão origem a um algo “novo”,
“original”. A relação entre diferentes culturas se dá de forma pacífica e
acolhedora. O Brasil é antropofágico, recebe influências estrangeiras e as
transforma conforme as formas de sentir brasileiras. A grande marca do país é
justamente a convivência harmoniosa de contrários, que se combinam e criam uma
cultura própria. Será?
O que admiro como expressão artística
somente posso referir com base naquilo que respeito e no que rejeito. Acredito
que a arte nos toca por diferentes motivos, razões que nos são inconscientes,
pois construídas ao longo de nossas vivências. Uma pintura, uma escultura ou
uma música nos toca por mobilizar algo dentro de nós, que nem sempre conseguimos
conferir significado racional, mas que nos tira do mundo em um instante, ou nos
faz querer fugir em outro. Eu admiro o belo, o esteticamente admirável. Gosto
da forma como é representado, seja pela luz e sombra de Rembrandt, sejam pelas
cores delicadas e vibrantes dos impressionistas. Gosto do que me causa paz, que
me faz refletir, que me acrescente uma nova forma de enxergar o mundo, mas que
me fortaleça a abasteça; que me impulsione a continuar a acreditar. Não gosto
do que me deprime ou degrada como ser humano, apesar de considerar importante
pensar sobre nossas limitações como seres racionais. Gosto da harmonia.
Gostar de harmonia me torna elitista,
retrógrada ou, simplesmente, obsessiva?
Deveria eu ter maior consideração com aquilo que não consegue alcançar a
beleza harmônica, ou pelo menos o que assim considero?
Temo a hierarquização da arte.
Afinal, que vai criá-la? Quais serão os parâmetros aceitáveis para se
considerar uma manifestação artística válida e valiosa? Não seria um passo rumo
ao autoritarismo, ter o direito de dizer o bom e o ruim, o alto ou a “baixa”
cultura? Quem pode dizer?
Penso que tenho o pleno direito de
gostar e de não gostar de algo. Sou livre para tanto. O perigo reside em crer
que se eu não gosto, por ser que sou, por ter tido certa educação ou certa
criação, sou mais apto a dizer o que é bom; o que é superior ou inferior. Quero
sempre cultivar uma atitude de respeito para com as mais diversas manifestações
artísticas, sentindo-me livre para gostar ou não gostar, sem me sentir estranha
por isto.
Apesar disto, continuo preocupada por
ter tido os sentimentos que tive. O que eles dizem de mim?
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